Coluna do Comendador Baltazar IIEsta é a continuação do blog que fez, faz e sempre fará parte da relação daquelas pessoas que gostam ou odeiam das coisas que são escritas nele. Particularmente falando, penso que a maioria das pessoas odeiam. É por isso que ele volta no mesmo formato odioso. | ||||||
| Seja mais uma vez bem-vindo ao espaço do velho Baltazar | fale com o Comendador Baltazar | ||||||
Versão: Olga Ferro Tenho visto muito pouca coisa acontecer por esses dias, muito pouca mesmo. E percebi também que o Baltazar anda sério demais para meu gosto. Está certo que ficou enterrado vivo por alguns dias, e isto deva ter influenciado nas atitudes ou na falta delas para ele. Até fiz um pequeno agrado, preparei-lhe um delicioso pudim... Se bem que faz tanto tempo que não faço deste doce que nem sei se ficou bom. Porém, poderia ter ficado bom ou ruim que tanto fazia para o Baltazar, pois seus pensamentos estão distantes demais para que ele perceba que está em algum lugar conhecido, ou esteja um delicioso pudim à sua espera. No entanto, como ele vive num mundo que não sei qual é por estes dias não conseguiu se dar conta de que o doce era para ele. E quando ligou um fio ao outro em seu cérebro já era tarde; o cachorro, aquele lambão, deu um jeito rapidinho na iguaria... Não, o gato não come dessas coisas, prefere tomar cervejas. Tanto que está até com cirrose. Mas, continuando; quando se deu conta do sumiço do tal pudim olhou para o cão e chutou-lhe a bunda e deu um suspiro. Nada mais. Lá pelas tantas ele se levantou de onde estava com cara de tanto faz, calçou os chinelos e foi para fora. Na certa foi ganhar as ruas... Talvez rever os conhecidos, ou entrar em algum botequim... Talvez... Ou quem sabe... Entrar em algum botequim mesmo... Ah! Que vá, pensei. Contudo, aquele pé de plástico que puseram nele não me inspira confiança, pois parece que já vai quebrar pelas calçadas esburacadas ou derreter neste calor infernal que tem feito por esses dias. Enfim; dê o que for para dar, pois o pé não meu mesmo. Agora vou me preparar para a limpeza dos montes de bosta que o vira-lata largou pela casa toda, e ainda, passar um pano com detergente forte para tirar as manchas que se formou embaixo do lustre que o Pereirinha adotou como dormitório.
Versão: Baltazar Ferro Cansei de tudo que era chato. Cansei de fazer charme e cara de que tudo está bem para aquelas coisas que sempre me incomodaram. Vi o cachorro comer meu pudim, lógico, mas não falei nada, não gritei nada e nem quis reivindicar alguma coisa depois que o bicho deu a primeira abocanhada no doce. Já era tarde para qualquer coisa mesmo. Então, nem liguei. Em vez de destrinchar o animal na paulada dei-lhe apenas um carinhoso chute. Só para que ele se lembre de mim, nada mais. Resolvi então dar uma caminhada pelas redondezas, espairecer a mente e me livrar do ranço acumulado em meu lar. Sabe, tudo ficou diferente em casa. A televisão nunca teve um lugar em meu coração, e pelo jeito nunca terá... Isto é bom. Não suporto a idéia de ficar babando em frente a este estúpido aparelho enquanto se assiste bobagens feitas por pessoas não menos estúpidas que a própria tevê. Maldita hora que alguém resolveu criar isto. Continuando; antes de sair de casa passei pela cozinha para tomar um copo d¿água, pois estava com sede, depois olhei para cima com certo cuidado para evitar os torcicolos, e chamei o Pereirinha para ir junto comigo. Às vezes fico espantado com a destreza que o Pereirinha possui. Desta vez, ao sair do lustre onde ele agora costuma ficar, deu um rodopio e se lançou como se fosse um projétil disparado e ricocheteou pelas paredes que chegou a me dar vertigem. Mas tudo bem, logo passou. A vontade de sair pelas ruas era tamanha que tal tonteira não insistiu em continuar. E, se por um acaso continuasse com a tontura eu sairia assim mesmo. O primeiro bar mais ajeitado que encontrei não tive dúvidas, me joguei para dentro. O Pereirinha? Jogou-se junto. Porém, uma pequena diferença entre nós dois, com apenas um salto ele alcançou do meio da calçada um banco lá no fundo à beira do balcão. Quanto a mim, tive de caminhar um tanto para alcançar o assento. Sem problemas, pelo menos consegui chegar. Então, sentadinhos nos devidos banquinhos, pedimos umas cervejas para degustarmos. E a bebida desceu miraculosamente agradável por nossas gargantas, digo, pela minha garganta, pois nem sei como foi que a bebida desceu pela garganta de meu amigo. E olha, nem me interessa saber também. Bebemos algumas cervejas e a sensação de satisfação havia chegado a seu ápice, ou seja, já estava pra lá de satisfeito. Poderia dizer até que estava empapuçado de tanto beber desta bebida, e, apesar das babas escorrerem sem freio pelo queixo, mangas, mãos, barriga, pernas e balcão de tanta satisfação, estava me sentindo maravilhosamente bem. O Pereirinha também se sentia bem, podia ver isto em seus olhos negros e miúdos. Só quem não parecia estar gostando da situação era a proprietária do bar. Não, não era por causa da bebida, e sim pelo fato das moscas que por lá voavam sem parar. Sabe, ao longo dos dias em que fiquei enterrado aprendi a conviver com este inseto nojento. Mas nem por isso eu aprendi a gostá-las. E enquanto eu me babava de cerveja junto com o Pereirinha, a dona se abanava com um pano de prato sujo para se defender das moscas que queriam pousar insistentemente em sua cara gorda, sebenta, suada e com alguns tufos de pêlos espalhados de maneira desordenada naquela aberração que costumam chamar de face. Nome este, aliás, que dão para qualquer coisa que possa servir de apoio aos olhos o nariz e a boca. Tudo bem, não dou bola para coisas que ficam apoiadas ou dependuradas nas faces alheias. Mesmo por que também fiquei com coisas estranhas na minha cara durante o período em que fiquei enterrado feito morto. Bom, só sei que deixei de olhar para aquela cara cheia de gotículas que iam brotando na testa, bochechas, nariz, lábios, buço, queixo e em sua ligeira papada que se debruçava sobre suas mal torneadas clavículas, para prestar atenção em outra coisa, meu copo vazio e que poderia tornar-se cheio novamente, por exemplo. De resto foi isso, sem muito mais que foi dito aqui. Contudo, antes de pagar a conta e me abraçar com o velho Pereirinha que rolava no balcão feito sei lá o quê, um cidadão, sentado numa cadeira que rangia as pernas, ao lado de outro tipo que quando abria a boca sem dentes emitia apenas uns chiados e uns pios, disse-me algo que não consegui entender, assim sendo não lhe dei atenção, não estava com vontade para tal. Assim sendo me agarrei com o Pereirinha, levemente alcoolizado e esbugalhando seus micro olhos para ver se enxergava alguma coisa, e fomos embora, pois já estava tarde. A proprietária do boteco nem percebeu nossa saída, ficou lá, rodando o pano como se fosse um ventilador. Tudo para espantar as moscas que certamente queriam se alimentar daquela gordura que brotava quase em estado gasoso de sua própria gordura. Posso dizer com certeza que não era um espetáculo primoroso de se ver. Então, continuando, fomos cambaleando pelas calçadas tortuosas em direção de casa. Eu cambaleava mais ainda pelo fato de ter um pé de plástico, e ele, inclusive, já estar um pouco derretido pelo enorme calor que tem feito por esses dias. Olha; na verdade o problema é que não estava acostumado com tanta coisa junto. Primeiro caminhar, depois beber e beber por um tempo, e para encerrar, ficar observando as moscas dando rasantes sobre a face gordurosa da dona do bar, e ainda, um velho com cara de bêbado falando coisas sem sentido para mim, ou sem importância para mim, ou para o outro que piava. O melhor mesmo foi quando cheguei em casa e me joguei no sofá. Pude dormir até não sei que horas. Êta, coisa boa.
Versão: Pereirinha Já estava de saco cheio de ficar ali, naquele lustre, pendurado, dividindo um espaço maravilhoso que tem uma geladeira perto com uma infinidade de coisas para comer e para beber. Além da visão extraordinária que tenho de lá de fora. Contudo, tem uns morcegos que, por serem abusados, não me deixam em paz. Tudo bem, não dou a mínima para a cara deles. Só fico pensando como foi que descobriram este lugar, pois não tenho conhecidos que sejam morcegos. Bom, não me incomodando já está bom. Agora voltando à minha narrativa sem muita alegria, poderia dizer até que é aborrecida, mas, que vá lá. O Baltazar, depois daqueles dias todos sumido, digo, morto, ou se fingindo de, convidou-me para uma volta etílica. Deveria recusar, sei disso, mas o calor estava tanto que, como estou perto do teto da casa o calor estava ainda mais insuportável que em outros locais da moradia. Então por que continuei lá em cima? Sujeito; tua falta de tato em perguntar tais bobagens me assusta... Ora, não sei que fazia eu lá em cima. Apenas fiquei um tempo, depois mais um tempo até que gostei de ficar lá. Só isso. Continuando; chegamos num bar pé-sujo e fomos logo pedindo uma cerveja bem gelada. Como disse; o calor estava para lá de insuportável. Então bebemos, e bebemos, e bebemos até que aquela coisa toda também encheu o saco e a barriga de líquido. Deveríamos voltar logo pelo fato de eu estar com princípio de labirintite, isso quer dizer que me perco facilmente. E como sei que o Baltazar é um perdido por natureza o forcei a parar de beber o quanto antes para que pudéssemos voltar ao lar... Pelo menos a salvo, por que são; não estávamos mais. Porém, tinha um sujeito estranho, com a feição triste, aborrecida, embriagada, tentando chamar nossa atenção para alguma coisa. Mas, não sei o motivo para isto, e também, nem queria saber dessas coisas. Meus olhos já estavam frouxos de tanto beber. Isso queria dizer: "vamos embora logo por que vamos nos perder". E foi bem isso que fizemos, quero dizer, que fiz, com puxões e apertões e beliscões e convenci o velho Baltazar a descolar a barriga daquele balcão para o nosso próprio bem. A sorte é que ele é um sujeito pacífico, apesar de ranzinza. Quanto ao sujeito; deixamo-lo por lá mesmo. Ele devia estar bem onde estava. Tinha um sujeito que imitava passarinhos ao seu lado. Sabe; o som da natureza é algo que impressiona e nos deixa mais calmos para enfrentar os problemas do dia-a-dia.
Versão: Eustachio Costumo tomar minha cervejinha todas as tardes. Bebo aos montes, sou acostumado com isso, e tenho esperança de que vou ficar ainda mais resistente se com esta atividade continuar. Tenho minha mesa cativa neste bar, pois venho nele todas as santas tardes, ensolaradas ou não, sempre estou aqui. Sei que a visão desta gorda se abanando com o pano, ou com a faca, ou com guardanapo, ou com a tampa do pote de margarina para afastar as moscas que atacam sua cara não é a melhor visão do mundo. Creio até que está muito longe de ser também. Mas o fato é que me sinto bem nesta espelunca, pois as cervejas estão sempre na temperatura que gosto de consumir. Sendo que tal temperatura não posso precisar qual seja pelo fato de eu não ser um termômetro. Então vi, numa cálida tarde onde os asfaltos se derretem de tanto calor, um velho com um pé de plástico acompanhado por um ser que, desconsiderando o grau alcoólico em meus pensamentos, mais as idéias tolas e furtivas que me bombardeiam frequentemente, poderia jurar ter a aparência de um macaco, entrou no bar com dificuldades e se largou impacientemente na banqueta em frente ao balcão. Entranho; pensei. Que vieram esses dois fazer num boteco mal visto como este, tomar suquinho de beterraba com banana? Continuei pensando. Gostaria de poder, talvez, trocar algumas idéias com esses tipos, pois já estava cansado de transformar minha linha de pensamento, da qual eu compartilhava com um banguela que piava feito um passarinho, em monólogo. Feito que este sujeito, que só me olhava, piava, arrotava chocho e cheirava a oxidantes ainda tinha a pachorra de arregaçar sua boca e mostrar o vácuo composto pela ausência total de dentes... Deprimente tudo isso. Mas como ficar dentro de casa é igualmente horrível prefiro me afundar nesta cadeira que range e, consequentemente, afogar-me com algumas dúzias de cervejas. Não acredito, minha sapiência fora posta no lixo, e meus pensamentos idem. Por quê? Cá estou a beber feito um porco, sentado ao lado de uma múmia que tem um vazio na boca e no crânio, pela falta de cérebro. E quando vejo um tipo que talvez possa me satisfazer com sua arrogância típica de quem já está com o saco cheio de tanto viver, sujeitos estes que geralmente tem alguma coisa para dizer além de palavrões e resenhas de novelas ou de telejornais vão embora sem dizer um simples "vai se ferrar". Simplesmente não creio nisto. Enfim... -- Dona Jurubeba! É! A senhora mesma. Quer parar de rodar este pano nojento para me trazer mais uma cerveja? Estou sedento... Preciso beber para esquecer da vida, esquecer deste banguela estúpido que está aqui do meu lado, e obviamente, esquecer da senhora também, pois não suporto mais vê-la.
Versão: Dona Jurubeba Ai, ai! Não agüento mais me desviar dessas moscas. Ai, ai, que calor! Vou derreter, vou morrer, vou virar banha. Pelo menos assim. Não consigo me concentrar, preciso urgentemente de um ventilador, ou de pega-moscas, ou de um repelente... Que será que aconteceu no capítulo da novela de ontem? Ai, ai, como posso pensar nessas coisas quando tenho de me ocupar minha mente em como livrar meu corpanzil sebento e repleto de gotículas de suor que brotam como se fossem chafariz de meus poros largos? Realmente não consigo pensar em outra coisa... -- Alguém quer mais alguma cerveja?... Ei, você! Pare de vomitar aí no chão. Vá fazer essa nojeiras lá no banheiro, e depois dê a descarga, pois não pago a diarista para ficar limpando coisas que bêbados têm o hábito de fazer quando estão bêbados. Ai, ai, penso que deveria comer algo, minha barriga ronca feito porca velha... Talvez aquele resto de paçoca que deixei a semana passada em cima da caixa registradora venha a calhar neste momento. E se meu marido não vier me buscar hoje? Como farei para voltar embora lá naquele cafundó. Um dia encho a cara de coragem e saio de casa para algum outro lugar... Mas que moscas chatas! Sabe, preciso parar de usar este pano para matar esses bichos, mais tarde terei de enxugar os copos para os fregueses que vêm no final da tarde... Mais bêbados... Ai, ai, é muito bêbado para uma mulher só. Oiram Bourges - 00:05 para cima Segunda-feira, Dezembro 04, 2006
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